APENAS UMA KOMBI

por Petra Elster

 


Joãozinho ilustrador recebe por uma ilustração vetorial de uma Kombi R$ 0,00, por ilimitados usos de seu trabalho. Após um ano, postando suas ilustrações de graça, o primo diz que não empresta mais dinheiro pra ele e Joãozinho vende o computador e vai fazer sanduíche natural.

A lojinha de computadores em que ele se abastecia, perdendo o cliente, diminui a compra de equipamento. A Corel não vende também a atualização do software (num mundo ideal em que ele não usava Corel pirata). Assim como o Joãozinho, centenas de outros ilustradores também param a sua atividade e vão vender sanduíche natural.

Novos potenciais ilustradores ao conversarem com Joãozinho e sua turma, descobrem que não dá pra viver de ilustração e assim menos computadores e softwares são comprados. Escolas de computação fecham seus cursos de Corel e de Photoshop e despedem professores. Alguns destes professores, vão trabalhar na cozinha de Joaozinho fazendo sanduíches, pois curiosamente, nem que seja a R$ 2,50, o preço do sanduba nunca é R$ 0,00.

A Corel, percebendo que não vende tanto no Brasil, diminui o seu pessoal na America Latina, fato que sai publicado no jornal e o povo xinga os norte-americanos por eles estarem tirando emprego dos latino-americanos.

Uma parte dos representantes da Corel no Brasil vão abrir franquias do Sanduba do João, negócio que continua indo de vento em popa.

O filho do João, descobrindo seu talento para desenho, quer ir pra faculdade de artes plásticas e é impedido pelo pai que ameaça deserdar o filho se ele se atrever a perseguir uma profissão tão ingrata.

Vários colegas do Joãozinho Jr. ao ouvirem isso mudam também de carreira. A Fuvest lança uma pesquisa junto aos jovens e descobre que as profissões ligadas à arte estão em franco declínio no mercado de faculdades e cursos.

As faculdades diminuem suas turmas para estes cursos e mandam mais professores embora, bem como diminuem todos os serviços agregados.

15 anos depois, Joãozinho Jr. decide mudar o logotipo que o pai fez para estampar na sua frota nova de Kombis, que vai entregar sanduíches em toda grande São Paulo. Ele contrata uma agência de design e recebe os layouts.


Quando mostra para a arte para o pai este quase enfarta. O logotipo novo, pelo qual ele deve pagar R$ 15.000,00 mais a utilização, está estampado no seu desenho vetorizado da Kombi, que ele fez 25 anos atrás e até hoje não recebeu nem um centavo de real.

A história é fictícia... mas o problema é real.