IMAGO DEPENDENTES

por Montalvo Machado

 


Os ilustradores andam sisudos, rabugentos, duros e com poucas perspectivas de trabalho.

Por que estamos tão tensos? o que tá pegando?

Temos bancos de imagem nos comendo pelas pernas, sites piratas distribuindo artes de graça, outros artistas que fazem baratinho ou de graça, clientes pechinchentos, editoras com contratos draconianos nos roubando os direitos de lucro sobre nossa arte, que fazemos com tanto amor.

Amor? será que é amor ou necessidade?

Necessidade de quê? de pagar as contas ou de viver desenhando? O que é mais importante?

Por quê não procuramos um emprego?

Por quê não seguimos os conselhos da mamãe, e não nos tornamos médicos ou advogados?

Por quê insistimos neste vício?

Opa! peraê! eu disse vício?

Será que desenhar vicia?

Ai caraca! Será que estamos viciados?

Não, de jeito nenhum! Quando se fala em vício, dependência, etc, vem aquele papo da perda do controle, da pessoa vendendo suas coisas para sustentar o vício, distúrbios de peso, má alimentação, gastrite, irritação, sono durante o dia, insônia à noite, afastamento dos amigos, da família, problemas de saúde, necessidade compulsiva e agravada de consumo, dependência física, psíquica... não, eu não sou assim não...

Ai, meu Jisuis! Tudo isto faz parte da vida dos ilustradores! Em níveis pequenos, aceitáveis socialmente, mas tudo se encaixa!

Nós damos prioridade ao trabalho afastando amigos e família, adiamos viagens, baladas, encontros, viramos noite maltratando a saúde, enchemos o tacho de pizza, coca-cola e café, dá aquela azia tremenda na manhã seguinte, e muitos casos ainda mais graves alguns artistas se acham diminuídos, incapazes, fragilizados perante aos clientes, e aceitam qualquer proposta, levando a auto-estima para o fundo do buraco, perguntando a si mesmos, no fiofó da madrugada, se tudo aquilo vale a pena, se compensa tanto sofrimento para entregar um desenho na manhã seguinte.

Meus caros, admitam, somos imago dependentes.

Eu, como todo dependente, tenho grande dificuldade em querer largar o vício, e quero mais, cada vez mais. Sei que faz mal, desgasta, agride, mas me dá um prazer muito grande, satisfação ao ver a imagem pronta, dá um barato bem louco receber elogios, enfim, tenho que admitir, sou viciado em ilustração.

Vender as coisas pra sustentar o vício? ah, isto não... eu não... bem, teve uma vez...

Já vendi um ingresso do Free Jazz Festival na porta do Palace e com a grana comprei um livro de anatomia... pronto, falei, cacete. Ray Charles ia tocar, e eu escolhi um livro. E quer saber? NÃO ME ARREPENDO NEM UM PELINHO, FALOU? FARIA DE NOVO, FARIA DEZ VEZES SE NECESSÁRIO!

Me arrependo mesmo é de não ter comprado dezenas de outros livros maravilhosos, de pagar contas bestas como água, luz e telefone, ao invés de sustentar meu vício.

Tenho medo de entrar nas livrarias hoje em dia, eu sei que vou fazer besteira, eu me conheço... um dia após o outro... uma ova!

Eu vou mesmo assim! Qué nem sabê, falôu? Eu vou lá mesmo, entro na FNAC, frequento a boca de ilustra em tudo que é sebo do centro da cidade, vou na MegaStore da Saraiva em tudo que é shopping, e fuço tudo, reviro aquela bagaça de ponta a ponta, até achar mais um, mais unzinho só, é o último, juro.

Tem uns que não dá pra resistir, são muuuuuito loucos, é coisa de primeira, classe A mesmo.

Dou a maior bandeira, os zoinho fica tudo estaladão, deste tamanhão, qualquer um se liga, este cara tá doidão... a gente ouve os comentários: "é livro demais, coitado"... tô nem aí, eu quero é mais!

Fala sério, quem aí passa por um livro ilustrado pelo Cárcamo e não paga um pau? Ah, tá vendo?

Sei que tem nego aí se torcendo todo, roendo os dentes, esperando o livro do Benício sair, e vai lá, vai comprar, vai porque eu sei, eu também vou.

Uma vez fui na Livraria Cultura, vi um do bom... era do Juarez Machado, lindo, lindo, edição limitada, novinho, coisa raríssima, mas eu tava durango... pedi pro cara reservar, mas ele queria dinheiro! O dono da boca não aceita desculpa, quer é grana, safado. Se fosse ilustrador aceitava pechincha, contrato de risco, até dava o livro pra mim, era só jogar um papinho doce, mas o cara era jogo duro... Escondi a muamba, virada com a lombada pra dentro, senão outro maluco ia lá e PÁ, levava embora. Quase não dormi direito. Voltei no dia seguinte, e tasquei um cheque pré. Sem um puto na conta... mas levei. Depois arranjei trabalho e deu tudo certo, e o danado do livro tá na minha estante, rapaziada! E vou te contar, valeu! É coisa boa demais, semana passada dei uma olhada, e vixxxxxxxx, viajei de novo... mó legau.

Não tem como negar, somos viciados.

A única maneira de não nos estabacarmos na sarjeta é sabendo usar o vício a nosso favor. Assim poderemos sustentar o vício com o próximo trabalho, e de quebra pagar umas contas, trazer da loja um agrado pra patroinha, um presente pro filhinho, pagar a prestação do carro, e ninguém vai perceber que somos dependentes. Vão achar que é normal até, desenhar todo dia, toda noite, na fila do banco, até de madrugada, tudo bem. Se a gente fizer um social, ver os amigos, jantar com a sogra, levar a família pra praia de vez em quando, ninguém vai reparar ou implicar com a nossa dependência, e poderemos desenhar loucamente, sem repressão, até o último dia das nossas vidas.

Mas pra isto, tem que saber fazer a parada direitinho, certo, mano? Tem que enrolar a arte num contratão deeeste tamanho, pilar a bagaça com uma nota fiscal bem quente, e meter fogo na bomba com um boleto bancário.

Aí num tem erro, mermãozim, é sóóóó curtir.

Mó viaaaagem, tá ligado, mano?

Fuiiiiii.