Metáforas, sínteses e paradoxos integram a linguagem do ilustrador Montalvo Machado, que desenvolve a técnica da aquarela com giz pastel e solvente

influências norte-americanas

Montalvo estudou desenho de anatomia com o veterano ilustrador Ignácio Justo e desenho de observação com Dalton De Luca. Como havia poucas opções, além destas, para um estudo específico de ilustração comercial, buscou formação profissional nos Estados Unidos, onde encontrou os ilustradores que foram suas maiores influências. Em 1997 e 1998 foi aluno
dos artistas que criaram a Illustration Academy, um workshop intensivo de ilustração em Liberty, Missouri.

Nesse curso aprendeu psicologia aplicada, que ressalta a ilustração além da técnica, através de metáforas inteligentes e associação de idéias. “Os ilustradores da Illustration Academy mudaram radicalmente minha maneira de pensar, executar e compreender a ilustração, e a primeira coisa que fiz ao voltar foi reconstruir o portifólio do zero, processo que durou mais de um ano”, diz.

“ Os ilustradores americanos sempre me fascinaram pela técnica, habilidade e personalidade inconfundíveis. Drew Struzan, o ilustrador que fez os pôsteres de Star Wars, Hook e Indiana Jones, consegue criar cenas e personagens mais reais que o próprio filme. Outros geniais são Glenn Harrington, David Grove, Bernie Fuchs, Kazuhiko Sano, Michael Dudash e Robert Hunt.

Artistas mais antigos também são referências até hoje, como Dean Cornwell, Saul Tepper, John Singer Sargent, N. C. Wyeth, Howard Pyle, J. C. Leyendecker e Al Parker. Perseguindo esses artistas, acabou encontrando, em Nova Iorque, o museu Illustration House, dedicado aos ilustradores antigos. “Foi fantástico ver os originais deles de perto, a maioria pintados a óleo, remetendo a tempos em que as ilustrações de livros e revistas eram obras de grandes pintores”.

Trabalhar o imaginário, a metáfora que seria impossível numa foto, descobrir uma maneira não óbvia de contar uma coisa óbvia é o que, para ele, torna a ilustração eficiente. “Ilustração não é gordura, é orgão”, diz.




Acima: ilustração para capa de CD do grupo "Duo Quase Acústico". 2000.
Ao lado: imagem criada para acompanhar crônica sobre o encontro de Harry Potter com as lendas brasileiras (não publicada).

“ Seguindo as características de um ilustrador de nosso tempo, Montalvo tem sempre uma solução de estilo para diferentes desafios, e deixa sempre a sua marca.
Em meio ao bombardeio de ilustrações digitalizadas, ele procura ser o mais fiel possível aos suportes tradicionais, fazendo uso de uma técnica apurada que vai do lápis à pintura acrílica. Em seus trabalhos se pode perceber, às vezes, a influência dominante do movimento Art Déco, e, em outras, de movimentos mais contemporâneos.
Mas é na caricatura que suas ilustrações têm presença mais marcante, e permanente. Seguindo a tradição dos artistas mais clássicos, procura retratar com bom gosto os traços da personalidade dos personagens por ele desenhada”.
Carlos Grassetti, diretor de arte da diretoria editorial da editora Abril

Acima: ilustração para revista "Audi Magazine", para reportagem sobre pesquisa de preços de produtos sofisticados. Dezembro 2002
Ao lado: ilustração para abertura de texto sobre a apresentadora do Fantástico, Glória Maria, publicada na "Playboy", 1999.

técnica mista

A necessidade de usar um imenso repertório visual em trabalho mais autoral impulsionou Montalvo a usar técnicas avançadas, distantes do convencional. As ilustrações, feitas em papel, começam com tinta acrílica bem diluída, transparente. Acima da acrílica tem aquarela. Os efeitos resultantes não desejados são retirados com pincel molhado, aparecendo a cor que está por trás. “A maleabilidade da aquarela permite remover o pigmento, modificando cores, brilhos, criando volumes e reflexos”, diz.

Montalvo trabalha com tinta acrílica por baixo, que forma a camada definitiva, fixa. Na sequência, uma camada cor de pele e, por cima, outra marrom. “Em vez de pintar o branco em cima do marrom, eu tiro o marrom, assim consigo o efeito visual que quero sem colocar mais tinta”, conta. Além da técnica da aquarela, a ilustração ainda recebe tratamento de tinta à oleo durante o processo. A finalização do trabalho é feita com lápis de cor, tornando a imagem final com aparência arenosa, granulada. “O interessante dessa técnica é que não se vê as pinceladas. Você vê o resultado, mas não sabe exatamente como foi feito”, diz. A imagem é escaneada e submetida a um processo de calibração de cor, que Montalvo faz questão de fazer antes de entregar o trabalho para impressão.

Assumindo a etapa da calibração de cor, Montalvo afirma ter evitado as indesejáveis distorções que ocorriam na impressão de seus trabalhos. Mesmo trabalhando com scanner não profissional, diz conseguir efeitos mais próximos do desejado.






Montalvo Machado começou seu trabalho com desenho em 1983, fazendo imagens para uma estamparia de camisetas. Logo depois, desenvolveu layouts, storyboards, pranchas conceituais, mock-ups de embalagens para agências de propaganda. O desenho sempre foi seu primeiro objetivo profissional, mesmo quando, ainda criança, não tinha idéia clara do que seria trabalhar com isso. Apesar de ter atuado ocasionalmente como designer e diretor de arte, a fascinação pela ilustração predominou. Alguns de seus trabalhos são voltados para exposição em galerias, mas não se sente à vontade em ser apresentado como artista. “Minha criação é desenvolvida com técnicas, pensamentos e o olhar de um ilustrador”, afirma.
Quando decidiu ser ilustrador, Montalvo abandonou as atividades paralelas que desenvolvia até então, como dar aulas de inglês. ”A ilustração sempre teve uma atração mágica para mim, e por mais que exigisse horas além do normal, o prazer de concluir um bom trabalho sempre é extremamente gratificante”, diz.



No topo, à esquerda, ilustração para capa da revista "Recreio", publicada em edição que contava a história das pipas. 2000.
Acima, peça promocional para apresentação de portfolio, 1997.

publicidade, editorial e galeria

Os três segmentos de mercado em que Montalvo atua atendem a diferentes necessidades profissionais. “Os trabalhos de layout para agências normalmente são vistos por um número reduzido de executivos, que discutem sobre elas sem saber quem foi o desenhista, mesmo porque este não é o propósito. Concluído o objetivo, os layouts não têm mais utilidade, e a vaidade não faz parte do processo”, diz.
“ Trabalhos publicitários quase sempre são dirigidos rigidamente, com referências específicas, e que permitem pouca expressão pessoal. Mas é um trabalho muito bem pago, o que permite criar para projetos editoriais, com uma liberdade de técnicas e idéias muito maior, com um alcance de público centenas ou milhares de vezes maior, com uma vida útil bem mais longa, e com a autoria reconhecida, o que quase nunca acontece em peças publicitárias”, diz.



uso eficiente da ilustração

A sua maior preocupação é com a diminuição do espaço da ilustração. “A exclusividade, a objetividade, a compreensão imediata, principais atributos da ilustração, têm sido subutilizados. Uma revista com uma ilustração bem feita na capa, por exemplo, se destaca entre as outras numa banca, porque a imensa maioria das revistas apresentam fotos ou montagens fotográficas nas capas”, diz. “Nem toda ilustração é uma boa imagem, mas há entre os melhores ilustradores uma capacidade de síntese, de impacto visual e de funcionalidade estética que nenhuma foto conseguiria transmitir, e isto vende. Não é uma mera questão de beleza, mas uma boa imagem vende mais que uma imagem medíocre, isto é uma realidade comprovável com estatísticas de venda. Então, porque não utilizar boas ilustrações para alavancar recordes de venda? Esta é uma questão que pretendo compreender, e se possível solucionar”. Seu maior objetivo é mostrar a funcionalidade da comunicação atraves da ilustração. Mas, acredita que isso só será possível aproximando os ilustradores dos profissionais envolvidos no processo gráfico, ou seja, os designers, diretores de arte, editores de arte, art-buyers etc.




Ídolos, amigos e novas iniciativas

Outra satisfação que encontra na profissão de ilustrador é a oportunidade de poder encontrar e conviver com antigos ídolos. “Conviver com pessoas que considero como heróis na profissão, acompanhar seus trabalhos de perto, frequentar seus estúdios, e tê-los como amigos, é um prazer e uma honra”, diz.
A luta de Montalvo pelo futuro melhor da ilustração resultou em várias iniciativas que congregam a categoria. Montalvo foi o criador do fórum Ilustrasite e partipou da fundação da Sociedade dos Ilustradores do Brasil.


Acima: Layout de show room para evento de lamçamento de carros modelo 2003, criado para Audi-Senna.