ERUDIÇÃO VISUAL Por Renato Alarcão
O convite foi feito por um designer, Roger Black, que havia sido contratado para fazer o redesign da publicação e tinha em mente dar mais vitalidade à linha editorial desta. Este esforço para reconquistar o gosto do publico deveria passar pelo uso mais freqüente de ilustrações. Bom sinal.
A revista Seleções, cujo conteúdo apresenta basicamente historias humanistas e artigos de serviços, já havia quase que completamente abandonado o uso de ilustração àquele ponto. Como parte do acordo para ser consultor, McMullan preparou uma apresentação de slides mostrando o trabalho de uns 30 ilustradores, que em sua opinião representavam não somente a enorme oferta de talento no mercado, mas também a importância destes artistas como contadores de historias visuais. Afinal são eles, os ilustradores, que muitas vezes iluminam aspectos do texto, criando uma narrativa peculiar, um verdadeiro apelo ao olhar do leitor.
Reunidos numa grande sala de conferencias, vários editores e designers aguardavam a apresentação. Antes que McMullan pudesse começar sua palestra, o editor chefe da revista desafiou-o dizendo que, pessoalmente havia banido as ilustrações da revista porque as achava "entediantes" (dizem que o Matinas Suzuki, bambambam da Abril falou coisa pior). A introdução foi a deixa que McMullan queria para tornar sua apresentação ainda mais interessante. Sua replica foi algo mais ou menos assim:
"Meu caro, você e seus editores tem controlado ilustração com tanta rigidez em termos de exatidão das informações e controle de conteúdo que isso se tornou um tédio. Vocês basicamente encaram ilustração como a ultima solução para substituir a foto que vocês não conseguiram..." McMullan, não estava falando do realismo das ilustrações, mas sim de controle por parte dos editores. E continuou: "Seu departamento de pesquisa coloca tanta pressão nos ilustradores, para que cada parafuso de um desenho de um avião esteja no lugar certo, que no final do trabalho, quando a arte é entregue, o próprio tédio do ilustrador transparece...Sem contar o vai-e-vem de ajustes, os prazos que vão de apertando a ponto de não sobrar tempo para que o ilustrador possa se divertir ".
Nada pode ser mais verdadeiro. Noites em claro e prazos desesperadores são talvez os maiores inimigos de uma boa ilustração.
Sim, a reconstrução de eventos é apenas uma pequena parte do que a ilustração pode fazer. Mas muitas vezes, uma ilustração expressionista, com a carga em preto e branco de uma xilografia pode dizer muito mais sobre uma historia de guerra do que uma cena realista de um soldado atras de uma trincheira, aviões no céu, e muita cor vermelha. Tudo com um preciosismo e atenção ao realismo de cada detalhe. A arte acaba ficando "dura", uma cafonice de se ver. Não raro, o ilustrador pode vir com uma imagem que nem mesmo esta' citada no texto, mas cuja idéia obriga o leitor a pensar, digerir, tentar compreender seu ponto de vista.
Quem não admira os conceitos visuais e o traço inteligente de um Cavalcante, Lula, Liberati e muitos outros colegas brasileiros? Me pergunto ainda se, ao pegar uma foto, e reproduzi-la perfeitamente, tintim por tintim, estamos fazendo ilustração. Para mim isto é exercício técnico. O momento em que o ilustrador apresenta seus esboços, os chamados "lápis", deveria ser de profunda integração com o designer, uma verdadeira troca de idéia entre parceiros e jamais um cabo de guerra entre egos em conflito.
Desde os tempos de universidade, um professor meu, o ilustrador Rui de Oliveira (autor das aberturas do primeiro Sitio do Pica Pau Amarelo) dizia o quão importante deveria ser o ilustrador demonstrar erudição visual. Rui defendia que o linguajar do ilustrador deveria demonstrar seu conhecimento não somente da profissão ou das técnicas, mas incluir também uma argumentação segura sobre o projeto, enumerando os porquês da narrativa visual, incluindo citações de historia da arte, e tudo o mais. Rui dizia que isto não seria um mero artificio para impressionar o cliente ou tirar onda de esperto, mas sim demonstrar que somos profissionais conhecedores do nosso oficio, estudados e escolados. Isso seria uma forma de conquistar respeito.
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