ÓCHITON

Parte I - TALENTO

Por Montalvo Machado

 

 

Numa redação com uma belíssima vista para o mar, os editores, na sua rotina diária, tomam suas importantes decisões sobre as pautas, matérias, fotografias, olhos e legendas.

 

Este ambiente cheio de pessoas falando muito, com expressões preocupadas, onde todos passavam horas no telefone e na frente dos computadores, era o local de trabalho de Óchiton dos Santos, de 1,87m, 12 anos, filho do ascensorista, que ficava na redação como aprendiz de estagiário de auxiliar da moça do café, por ter abandonado a escola, depois de repetir vários anos, sempre distraído, desenhando, desenhando.

 

Garoto curioso, querendo entender o que o pessoal da sala de vidro discutia tanto, porque tamanha confusão, gritaria, em alguns dias, para depois passar uma ou duas semanas só lendo jornal, fumando, vendo mulher pelada nos computadores... isto intrigava Óchiton, que não se atrevia a perguntar nada, apenas ficava colado no vidro, olhando entre as persianas, a cada vez que um senhor de brinco e de cabelos grisalhos, presos em um curto rabo-de-cavalo aparecia na redação, com o objeto de desejo do jovem Óchiton: desenhos... aquarelas belíssimas, caricaturas engraçadas, pessoas conhecidas da TV, que ele não sabia o nome, mas que deviam ser importantes, porque usavam terno.

 

A cada vez que o senhor grisalho aparecia, o comprido adolescente arranjava uns copinhos de café pra jogar no chão, justificando sua presença junto a parede de vidro, e pelas frestas, olhava as maravilhosas imagens que o artista trazia à redação. Ele havia notado que o senhor de brincos e rabo-de-cavalo sempre parecia cansado, com olheiras, e bocejava muito, mesmo aceitando os vários cafezinhos oferecidos pelo jovem Óchiton, e que apesar de sempre sorridente e educado com ele, durante o longo tempo que esperava no sofazinho da recepção, parecia triste e desapontado quando abria a pasta branca na sala de vidro, e discutia com os outros homens importantes da redação.

 

Como podia ser - pensava Óchiton - um senhor tão bacana, devia ser inteligente para fazer desenhos tão bonitos, e que saía da sala de vidro com uma expressão ainda mais cansada, depois de ouvir muito e falar pouco, com seus patrões na sala de vidro.

 

Um dia, tomou coragem, e aproveitou que a porta da sala de vidro estava aberta, e interrompendo a todos que falavam ao mesmo tempo, perguntou: "posso fazer um desenho pra revista?". Como era mais alto que todos da sala, e estava naquela fase onde os adolescentes mudam de voz, a sua desafinação entre graves e agudos numa frase tão curta, calou por um instante a acalorada conversa.

 

"O quê disse?", falou o redator-chefe, o mais baixinho da redação, talvez do prédio todo.

 

Óchiton tremeu, olhou para baixo e continuou com a voz ainda mais falha: "é que eu queria desenhar pra mostrar pra minha mãe. Ela me disse que eu não sei fazer nada, e não acredita que eu sei desenhar".

 

"Sabe mesmo?", perguntou o redator-chefe, olhando sorrateiramente para o editor de arte, que fez um sinal de positivo com o dedo, sem que Óchiton pudesse notar. E continuou: "Então senta aí".

 

Foi a primeira reunião que Óchiton participaria, e não seria a última.

 

Com alguns lápis de cor que o estagiário de redator tinha comprado para seu sobrinho, mas não pôde entregar no seu aniversário por causa do fechamento da última edição, Óchiton deu seus primeiros rabiscos na redação. O fato de desenhar com certa facilidade impressionou muito aos presentes, apesar de não ser nada demais para um garoto de 12 anos, que abandonara a escola antes sem completar o 4º ano primário. O outro artista nunca desenhava fora do seu estúdio, portanto os redatores nunca haviam visto uma imagem sair tão facilmente do branco do papel. O próprio estagiário de redator tratava as imagens, porque havia feito um curso online de Photoshop, e estava animado com a possibilidade de se tornar diretor de arte, o que aconteceu alguns meses depois, em outra revista do mesmo prédio, quando remanejaram quase 300 funcionários.

 

É certo que o garoto levava jeito pra coisa, e viu naquela oportunidade a chance de sua vida, de fazer o que gostava, de mostrar a sua mãe que não era um inútil, e quem viu, disse que foi tocante ver um homem de quase 2 metros de altura enxugar lágrimas ao ver seu primeiro desenho na revista. Ele disse que nunca precisaria ganhar nada, aquilo pra ele bastava. Era tudo que queria na vida.

 

O senhor grisalho nunca mais foi visto naquela redação, e durante anos Óchiton contava animado a seu pai, no longo caminho de casa, quais foram os desenhos que ele havia feito naquele dia, enquanto seu pai disfarçava os cochilos, entre uma cabeçada e outra na janela do ônibus.