ESCALA TÉCNICA EM 2003

Por Montalvo Machado

 

 

Atenção senhores passageiros do expresso 2222.

 

Por motivos de ordem técnica, faremos uma escala no Brasil de 2003, antes de desembarcarmos no nosso destino, o Brasil no ano de 2222.

 

Peço que não se afastem muito da aeronave, e especialmente não entrem em pânico com os avanços da tecnologia e retrocessos sociais do local.

 

Algumas informações que podem ajudar na sua permanência neste período:

 

A tecnologia local permitiu avanços incríveis na comunicação, nas artes gráficas, no desenvolvimento e na utilização de softwares imensos, e extremamente caros, que estão sendo destruídos por outros softwares minúsculos, distribuídos gratuitamente, que os nativos chamam de "vírus", gerando fobias e levando insegurança a muitas pessoas. A tecnologia avançou mais nos últimos 10 anos do que em toda a História deste povo, mas mesmo assim eles ainda a utilizam para distribuição de propaganda não solicitada, conversa fiada, e uma moda recente, onde os chamados internautas se reúnem em locais pré-determinados para fazer alguma idiotice em grupo, chamando o evento de flash-mob. Poderiam se organizar para fazer algo útil, já que a sociedade atual está aos pedaços, e carente de ações humanitárias verdadeiras, mas isto não vem ao caso. Basta não dar maior atenção aos modismos dos habitantes desta era, já que manias como esta vem e vão, sem maiores consequências.

 

Com estes avanços tecnológicos, um fenômeno interessante é que todos são considerados ARTISTAS, e com poucas horas na frente de suas telinhas e teclados, são capazes de fazer qualquer coisa, e todo o tipo de produtos e serviços é comercializado por qualquer valor. É um imenso mercado livre, onde todos têm oportunidades iguais, uma maravilha, totalmente diferente da Era Pré-tecnológica que durou muitas décadas, criando diferenças profissionais e sociais que separavam demais as pessoas, e premiavam com altos salários e respeito entre seus iguais apenas os mais determinados, que se prestavam a longos anos de estudo e dedicação até que alcançassem o sucesso, objeto de desejo, o Graal de todas as classes sociais da era atual. No período em que desembarcamos, já não há mais estas diferenças preconceituosas, e todos podem se estabelecer comercialmente rápida e facilmente, sem esta dispendiosa e injustificável perda de tempo. Tudo que precisam é de um computador, pois sem esta ferramenta, apenas os artesãos podem ser considerados ARTISTAS pelas diversas tribos deste período.

 

Peço também que respeitem o luto dos habitantes desta escala, porque hoje é um dia especialmente triste para a população local. Sérgio Vieira de Melo, um nativo respeitadíssimo internacionalmente por sua inteligência e persuasão em ações conciliatórias, e um dos grandes homens da ONU (uma espécie de governo paralelo, comum a vários países com interesses militares, territoriais e humanitários bastante questionáveis), foi assassinado num ataque terrorista no Iraque. Pouco conhecido entre os locais antes de sua morte, a tragédia o tornou instantaneamente em uma espécie de herói nacional, que operava uma missão de reconstrução de um país derrotado numa guerra recente. O país vencedor é comandado por um outro homem respeitadíssimo internacionalmente, mais por sua grande força do que por sua pequena inteligência.

 

Outra notícia lamentável foi que a terceira tentativa de lançamento de foguete desta aldeia sedenta de tecnologia e faminta de recursos, termina novamente em explosão, desta vez com duas dezenas de vítimas da tecnologia local, a maioria deles técnicos aeroespaciais locais, e dois fotógrafos, criando duas comoções nacionais em uma única semana. Técnicos declararam que houve corte de verbas para testes neste projeto. O corte de verbas é um hábito profundamente arraigado no povo deste período, criando desigualdades sociais que podemos ver apenas em países miseravelmente pobres e subdesenvolvidos, apesar desta aldeia ter riquezas imensas, uns poucos cidadãos com rendimentos anuais maiores que o PIB de outros países menores, um sem-número de miseráveis e analfabetos, e ocupar no mapa um território de proporções continentais.

 

São, no entanto, um povo alegre e receptivo. Cumprimentem os aldeotas com algumas palavras em inglês, e decorem as seguintes palavras mágicas: Pelé, samba, bunda e putaquipariu, e terão uma horda de guias turísticos a seus pés.

 

Aproveitem sua escala para tirar fotos e comprar suvenires, porque ao voltar para este local em 2222, talvez não se encontre nada como é neste momento. Não podemos afirmar quais serão as condições climáticas, sociais e tecnológicas no momento da nossa parada final, mas podemos lembrar uma frase de um cientista cabeludo, que aliás, ficou mais famoso ao ser fotografado mostrando a língua do que por todas as grandes contribuições que fez a humanidade, que dizia: "eu não sei como será a terceira guerra mundial, mas a quarta será com paus e pedras".

 

Senhores passageiros, divirtam-se em nossa escala técnica em agosto de 2003, primórdios do século 21!